A Herança Bensaúde

A herança de Henrique Bensaude

(Texto de Carlos Seruya no seu Caderno de Notas)

Neste Outono / Inverno de 1984 o programa de visitas dos Amigos de Lisboa é deveras interessante. Começou por ir ao Museu Gulbenkian de Arte Moderna `Exposição Almada Negreiros, onde o guia era ótimo, mas como o grupo aumentou muito em sócios interessados nos passeios culturais, o amontoado de gente em frente dos quadros impedia que se ouvisse as explicações do guia. Afastei-me e vi a exposição “by myself”.

No dia 13 de Outubro a visita foi ao Paço do Lumiar, visita ambulatória. Estava uma linda tarde. Começou pela Quinta dos Azulejos, de grandes tradições e que pertenceu em dada altura no 1º quarto do século (XX), à minha tia Rachel.

É curioso que vem no Guia de Portugal da Biblioteca Nacional, 1º volume, de 1924, a notícia, a págs. 438 de que a quinta pertencia então ao Sr. Henrique Scholtz, nem mais nem menos do que o tio Henry, marido da tia Rachel, o grande benemérito da família Abecassis.

Um dos mais excecionais exemplos do uso da azulejaria portuguesa num jardim do século XVIII.  As características peculiares manifestam pela combinação de um espaço de pequenas proporções e cercado por altos muros, com uma decoração rococó, marcada por um exuberante e intenso cromatismo, que levada até aos seus limites, cobre muros, arcos, pilastras, fontes, pérgulas, colunas e alegretes.  Fechado sobre si próprio sem qualquer contacto com a paisagem envolvente exterior, este jardim manifesta-se como um original caso de jardim cripto-mágico.  Num ambiente intimista de forte sentido feérico a natureza surge aqui de forma sublimada, num ambiente luxuriante, mas marcadamente arquitetónico, radicado numa memória antiquíssima de tradição mediterrânica e islâmica, de que os jardins do Alhambra constituem o seu um exemplo mais paradigmático.

Jardim Quinta dos Azulejos (ver mais)

Para que os Seruyas que lerem isto saibam, e venerem a sua memória;

Foi a tia Rachel que herdou a grande fortuna acumulada pelo meu Tio-Avô Henrique Bensaúde, casado com uma senhora americana, a tia Hatty, da minha infância, e que viviam na casa da António Augusto de Aguiar, 64, que o tio Henrique construiu e depois a partir de 1926, foi nossa, comprada pelo meu Pai (ou herdada, isso não sei ao certo).

Ora o tio Henry não achou justo que fosse a tia Rachel a herdar sozinha toda a fortuna da tia Hatty, e resolveu dividir o enorme património da senhora pelos seis irmãos Abecassis. Tocou a cada um, se não me engano, a bonita quantia que então era (os meus pais receberam a sua parte em 1930 ou 1931, não sei precisar) de £ 130.000, em Inglaterra.

Com esse dinheiro, Fortunato Abecassis iniciou o seu “império” comercial e industrial: “Mundial”, “Lusalite”, “Nally”, etc. e os restantes passaram a viver muito melhor! Nós, na António Augusto de Aguiar, que já era nossa antes do recebimento da herança (fomos para lá em 1926. Já lá passámos o 7 de Fevereiro de 1927, 8 dias de revolução sem sairmos à rua) – a minha Mãe tinha herdado da Avó Helena? não estou certo. Comprámos automóvel, chauffeur, viagens na Europa de 1931 até à guerra, etc. etc., quinta da Terrugem (que bela compra dos meus Pais!).

Pois foi tudo o Tio Henry Scholtz, já de si muito rico (cortiças, me parece) que possibilitou este grande desafogo financeiro (aos 6 Abecassis) pelo seu altruísmo bondoso e raro!

 


Voltando ao Lumiar e à visita dos Amigos de Lisboa, visitámos de seguida a Capela de S. Sebastião, lindíssima e que eu só conhecia de passagem. Depois quando íamos acabar o passeio a pé olhámos para as várias quintas, com as suas belas casas antigas, o dono da Quinta das Hortênsias no próprio Largo do Lumiar, convidou-nos a entrar no seu jardim. Quase que destruído tudo pelo seu anterior proprietário, um mestre de obras, que ia deitar abaixo para construir casa moderna! Felizmente um advogado, Dr. Cabral Moncada, teve o gosto e o dinheiro necessário, e salvou a quinta do desaparecimento. Essa quinta pertenceu aos Asseca, e lembro-me que foi aí que faleceu novíssimo, o meu amigo Correia de Sá (Bragança), colega de curso no ISCEF, que namorou a Meritinha Buzaglo, e me deu um desenho bem feito de um anão da fita do Walt Disney, que conservo. Era um bom companheiro.

O Molengão
O Molengão – Desenho de Luís Correia de Sá (Bragança)

No fim do Lumiar teve uma quinta o meu tio Fred (adquirida talvez com a herança Bensaúde, ou antes) onde na minha infância ia várias vezes, e aí teve uma trombose a minha avó Helena, durante um chá de família, e onde eu estava. Isso passou-se em 1927 e a minha querida Avó faleceu em 1933, na Avenida Fontes Pereira de Melo, nº 22. Foi ela que nos proporcionou, ao Victor e a mim, a compra da coleção de moedas do Pedro Batalha Reis, com o seu mealheiro preto, e que aumentámos pelos anos fora, até ao triste final da sua venda, consequência do famigerado 25 de Abril!

Em Coleção de notas, observações, … de Carlos Seruya.

Escrito em 29-10-1984

 

 

 

 

Nota:

 

Propriedade da Quinta dos Azulejos: (cf.: Sistema de Informação para o Património Arquitetónico)

1903, 26 maio – Henry Scholtz, cidadão norte-americano, residente em Alcântara, adquire a propriedade a Júlio Alves Ribeiro da Silva (Cartório Notarial n.º 4, cxa. 37, livº 357, fol. 25vº a 26 vº); 1909 – o negociante americano Henrique Sholtz, recebe nesta sua propriedade a visita de Juliette Adam, acompanhada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos da América; 1912, 05 agosto – a quinta é adquirida por Pedro Paulo Melo Figueiredo Pais Amaral (1886 – 1941), segundo conde de Santar, que a restaura conforme consta em inscrição na fachada ocidental.