Vale a pena ler o elogio a Mark Seruya.
(por exemplo no primeiro recorte de jornal):
“Dum trato cativante e duma fina e insinuante delicadeza…”
“Chefe de família exemplar duma distinta família…”
“Afeiçoado ao nosso país, ele o demonstrou inequivocamente naturalizando-se português em 1890…”
Extraído do Jornal “A Nação” de 22 de Setembro de 1914
Às primeiras horas da manhã de ontem faleceu na sua residência da rua do Duque de Bragança número 30 terceiro o nosso particular amigo senhor Mark Seruya que sendo um respeitável Cavalheiro era justamente apreciado no alto comércio pelas suas magníficas qualidades de carácter.
O senhor Mark Seruya encontrava-se doente há longos meses tendo sido infrutíferos os acrisolados esforços da sua família, que muito o estremecia, e os cuidados da ciência para debelarem o mal que infelizmente o prostrou. Adoecera gravemente na Suíça e aquando do seu regresso a Lisboa já não trazia aquela vivacidade de espírito e bonomia que o tornavam encantador no trato social em que o senhor Mark Seruya sempre primou, tornando-se muito querido entre a nossa melhor sociedade. Ultimamente raras vezes aparecia em público. Contudo ainda na “Estrela Polar” e no “Grémio” algumas vezes se notava a sua figura simpática de conversa com os amigos para quem tinha sempre uma amabilidade, uma frase espirituosa.
Quem tem o desgosto de traçar estas linhas teve várias ocasiões de apreciar os belos dotes espirituais do senhor Mark Seruya e de ouvir incentivos e aplausos que jamais esquecerá. Tendo viajado muito, o extinto, era um agradável cavaqueador e um grande amador de música tendo sido habitué de São Carlos. Trabalhador incansável, teve no alto comércio um merecido lugar de destaque sucedendo que, em muitas ocasiões da sua honrada vida o seu nome fosse indicado para exercer altas e espinhosas missões.
Deixa viúva a Senhora dona Ester Abecassis Seruya, distinta Senhora a quem têm sido prestadas neste cruel momento inexcedíveis provas de consideração e amizade; assim como às senhoras D. Júlia e D.Lyce Seruya e aos nossos queridos amigos srs. Fortunato e Elias Raphael Seruya, filhos do extinto, a quem apresentamos os nossos cumprimentos de pêsames, curvando-nos respeitosamente ante o ataúde do saudoso morto.
O funeral realiza-se hoje pelas 7 horas da tarde.
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Diário de Notícias 22/09/1914
Finou-se ontem após doloroso e prolongado sofrimento o senhor Mark Seruya, estimado cavalheiro bem conhecido na nossa sociedade e na Praça de Lisboa.
Esta triste nova será recebida por todos com verdadeiro pesar, pois o senhor Seruya contava verdadeiras simpatias, justamente conquistadas pelas suas apreciáveis qualidades. Dum trato cativante e de uma fina e insinuante delicadeza, o senhor Mark Seruya transformava em sinceros amigos seus todos os que com ele se relacionavam. E além disso uma sã bondade e bonomia adornavam todos esses predicados.
O seu passamento deixa, por isso, um profundo sentimento nos nossos meios de sociabilidade estando muito relacionado. Depois do seu labor no Grémio Literário onde comparecia, se notava pela sua boa palestra. Na sua casa, chefe de família exemplar duma distinta família que adorava, ele sabia por seu turno imprimir-lhe todo atrativo o medido brilhantismo que são o apanágio de quem bem recebe e sabe receber. As festas em sua casa, tão apreciadas, eram sempre, além de uma manifestação isenta de pruridos espalhafatosa, um prazer que não mais esquece, o gozo rivalizando com o encanto. Isto define bem os méritos de homem de sociedade. Pelo caráter, pela dedicação pelos seus, pela consideração que tributava e sabia inspirar, ele se impunha ao respeito e ao bom conceito que como preito à sua memória aqui deixamos consignados.
Afeiçoado ao nosso país, ele o patenteou inequivocamente naturalizando-se português em 1890, época que relembraremos só para o efeito de evocar a sua dedicação de inglês por esta sua segunda pátria.
Nascera em 27/06/1843 seu pai Salomon Seruya estabelecera em Lisboa a conceituada casa comercial que ainda hoje gira e era dirigida por o falecido e por seu irmão o senhor Elias Seruya.
Deixa viúva a Senhora dona Ester Abecassis Seruya e 2 filhas, D. Lice e D. Júlia e 4 filhos, Salomão cônsul de Portugal em Joanesburgo; Fortunato que há pouco chegara da América onde se dedicava ao comércio; Elias Rafael empregado na Empresa Nacional de Navegação, e Saul, atualmente no Rio de Janeiro.
Compungidamente, entre lágrimas e soluços, eles todos pranteiam a morte de seu marido e pai que muito lhes queria a quem eles também tanto queriam.
Acompanhamo-los sinceramente na sua dor e apresentamos-lhes a expressão do nosso pesar bem como a toda a sua família.
Por determinação do falecido não se faz anúncios da família para o enterro, que ele pedira para ser o mais modesto. Segundo parece realizar-se-á hoje, saindo préstito de sua casa na antiga rua do Duque de Bragança para o cemitério Israelita pelas 7 horas da noite. Assim o conseguiram saber as muitas pessoas que lhe desejavam prestar a derradeira homenagem.
Logo que a notícia de morte se soube, a casa da enlutada família acorreram muitíssimas pessoas a testemunhar-lhes o seu pesar.