“UM OLHAR SOBRE O PATRIMÓNIO DO CONCELHO DE OEIRAS”
A QUINTA DA TERRUGEM
E O
PALÁCIO “ FLOR DA MURTA ”
Maria Helena Junqueira Rato Miranda de Távora Ornelas Tavares
Novembro 2000

Palácio da Terrugem – Fachada
e
Rés-do-chão (varanda e capela ao fundo)
D. Luísa Clara de Portugal – Flor da Murta
Sala do rés-do-chão e Adega
A QUINTA DA TERRUGEM
E O
PALÁCIO “ FLOR DA MURTA ”
NOTA PRÉVIA
A ideia de elaborar este pequeno trabalho resultou de no âmbito da acção de formação para professores: “Um olhar sobre o património do Concelho de Oeiras”, desenvolver uma pesquisa, que permitisse um melhor conhecimento do património da Quinta de Terrugem de modo a dinamizar, na escola, actividades relacionadas com a história local e sua protecção.
Pretendi também fazer uma breve reflexão crítica sobre uma área onde habito e debruçar-me sobre a intervenção realizada, recentemente, no Palácio da Terrugem, denominado “Flor da Murta”, que durante muitos anos visitei e constatei a sua degradação.
Por outro lado, apesar de existirem obras de investigação histórica local, de grande mérito, verifiquei que talvez fosse importante para a história da Quinta da Terrugem, uma síntese não só da evolução histórica como artística do Palácio, para fins didácticos.
Os meus melhores agradecimentos à empresa Saneamento da Costa do Estoril, S.A., na pessoa do Sr. Presidente do Conselho de Administração, Dr. Henrique Zenha e do Sr. João Manuel Lobo da Silva, que amavelmente conduziu a visita, tornando possível a cobertura fotográfica dos interiores e exteriores do Palácio.
Igualmente agradeço à Dra. Filomena Serrão, da CMO, o excelente apoio a este trabalho.
INTRODUÇÃO
O Palácio da Quinta da Terrugem situa-se na Terrugem de Baixo, na freguesia de Paço de Arcos, a cerca de 500 metros da praia da Giribita e a meio caminho entre Caxias e Paço de Arcos.
A Quinta da Terrugem, conhecida por este nome desde o Séc XVI, era um grande domínio senhorial, compreendia à época, o Palácio e uma vasta área com foros, por vezes dispersos e casais difíceis de inventariar. Delimitada a Sul, pela Terruginha que confrontava com a costa, junto à entrada da Barra do Rio Tejo, a Norte pelo lugar de Porto Salvo, a poente com a Ribeira de Paço de Arcos e a nascente com o lugar de Queijas[1].
Faziam parte deste grande domínio, as Quintas do Barro, dos Castelos, das Giestas, da Giribita e do Pedrogão, entre outras.
O acesso ao núcleo central fazia-se:
– “ da praia para o lugar da Terrugem… pelo combro ou valado que fecha as terras e vinhas a nascente “[2].
– “ pelo caminho da Terrugem, junto de um leito de um regato”, hoje a Alameda Calouste Gulbenkian que cruza a Av. Oliveira Salazar, a actual Av. Salvador Allende.
Em 1889, a inauguração do troço ferroviário Pedrouços-Cascais leva a que esta propriedade seja atravessada pela linha férrea, no seu limite Sul, ao Km 12,5 do trajecto Lisboa-Cascais, retalhando-a em duas partes, que lhe vai determinar a perda de importância de outros tempos. A Norte até ao Alto do Lagoal: o Palácio com a capela, adega, outras dependências e campos agrícolas, a Sul da referida linha, foram construídos mais tarde, voltados para a praia, vários “chalets” e palacetes de férias, pertencentes a famílias conhecidas, Condessa de Cuba (Casa das Palmeiras), Curry Cabral, Bobone e Bessone.
Em 1943, segundo Branca Colaço e Maria Archer, para se ir à Qta. da Terrugem, seguindo o caminho da Av. Marginal, cortava-se numa transversal à direita quase em frente do Forte da Giribita e por um estreito carreiro chegava-se à linha férrea onde se podia ler um letreiro dizendo: “ o proprietário não se responsabiliza pelos desastres motivados pelo comboio. Apeie-se e olhe antes de atravessar “.
A praia, junto ao forte da Giribita (1649), era utilizada furtivamente, pois segundo o regulamento da época era exigida a presença de um banheiro.[3] “ Tomar banho só por prescrição médica e a receita … três mergulhos pela mão do banheiro e apanhar com a força de sete ondas consecutivas “.[4]
Ramalho Ortigão, em 1843, comentava “ é pena que, de tantas senhoras que se banham em Pedrouços, no Dafundo, em Paço de Arcos, em toda a orla do Tejo, tão poucas nadem. (…) Nas praias da Alemanha é raríssima a mulher que não sabe nadar. Outra diferença: as portuguesas vão para a água com demasiado fato; as alemãs chegam a ir vestidas unicamente com o seu bracelete ”.
De frente para a praia da Giribita a mansão da Condessa de Cuba, projectada em 1899 pelo arquitecto José Luiz Monteiro, foi ampliada e remodelada, em 1994, dando origem a um Hotel de quatro estrelas, o Sol Palmeiras, com 36 “suites”. Ao lado, a casa da família Bobone e Curry Cabral, em 2000, deu lugar ao Empreendimento Casas da Giribita, constituído por dois grandes blocos de alojamentos, em condomínio fechado, com 38 fogos, desvirtuando as características paisagísticas do Séc XIX.
Destes belos edifícios de outrora resta, na sua traça original, o palacete, de cor rosada, sobre a Marginal, dos viscondes de Bessone, Qta do Relógio, projectado em 1860 pelo arquitecto Cinatti.
A MEMÓRIA
A Quinta, desde os seus primórdios, pertenceu a três famílias nobres: Barém, Jacques de Magalhães e Meneses, que por laços de casamento a mantiveram até cerca de 1900.
– O primeiro senhor da Terrugem foi o lendário António Correia Barém que se notabilizou, em feitos e batalhas, defendendo a presença de Portugal no Oriente, desde o Golfo Pérsico à Índia, nos anos de 1518 a 1528.
Esteve ao serviço de Portugal, no tempo de D. Manuel I e foi recompensado por D. João III, que lhe concedeu, por carta de 1540 JAN14, licença para acrescentar no seu brasão os feitos de armas realizados nas Ilhas Bahrayn, dando origem ao seu apelido Barém. A pedra de armas de quatro campos, tem representada no canto superior esquerdo a cabeça do rei mouro decapitado, que atesta os bravos feitos no Médio Oriente.
Contemporâneo de António Correia Barém, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590) criou-se na Qta. da Terrugem, para onde os seus pais o levaram, para fugir à peste que grassava em Lisboa e aí passou a sua juventude.[5]Segundo as tradições da casa disse a primeira missa na capela do Palácio, nos começos do Séc.XVI.
Mestre notável, teve por discípulo D. António Prior do Crato, foi Prior do Convento de S. Domingos de Benfica e Arcebispo de Braga. Como representante ao Concílio de Trento, pôs em prática a reforma da igreja e a sua caridade foi notória na peste de 1570 e na carestia de 1574, chegando a dar as suas roupas e a própria cama.
Outros acontecimentos marcaram a sua vida, a Inquisição, 1536, a Batalha de Alcácer Quibir, 1578, e preside à cerimónia do juramento de Filipe II, como Rei de Portugal, nas Cortes de Tomar.[6]
– Pero Jacques de Magalhães, (1600?/1688), fidalgo da casa real, 1º Visconde da Fonte Arcada, 5º Senhor do paúl da Bordeira. Foi o instituidor do morgadio da Qta. da Terrugem, em 1681, na sequência do seu segundo casamento com D. Maria Vicência de Vilhena, herdeira Barém deste domínio[7].
Iniciou a carreira das armas, ao serviço do Rei de Espanha, na América do Sul. Envolveu-se na guerra da Restauração tentando capturar três galeões, carregados de prata, para oferecer o seu recheio ao rei D. João IV e transportar os emigrados portugueses espalhados por Cartagena, Colômbia. Por este motivo foi condenado a 10 anos de degredo, mas conseguiu escapar regressando a Portugal, com 40 anos de idade, onde veio a ocupar os mais elevados cargos, comandando forças de guerra de terra-e-mar, no período conturbado de 1646-1682.
– D. Jorge Francisco de Meneses (1690-1736) foi o 7º titular da Qta da Terrugem, neto de Pero Jacques de Magalhães e 5º neto de António Correia Barém, fundador da casa.
Residia no Palácio do Poço dos Negros, S. Bento, Lisboa, e sentindo-se traído, renunciou à mulher D. Luísa Clara de Portugal, mais conhecida pela “ Flor da Murta “.
Esta senhora foi alvo de galanteio real de D. João V que, segundo a lenda, compôs o seguinte madrigal:
“ Bela Flor da Murta
Raminho de Freixo
Deixar de amar-te
Isso é que eu não deixo “
E o povo comentava:
“ Flor da Murta
Mal haja quem te não furta “
- Luísa ainda não atingira os 30 anos, quando o rei “Magnânimo” com mais de 40 anos, compôs o madrigal alusivo ao belo traje, branco e verde, que vestia quando a viu.
Outros autores consideram que esta designação já existia anteriormente e atribuída ao Palácio da Rua do Poço dos Negros, em Lisboa.
Foi este Palácio frequentado por D. João V, sem qualquer pudor, o que levou D. Jorge de Meneses, homem honrado e de princípios, a refugiar-se na Qta. da Terrugem com os seus três filhos, D. António, D. Bernardo e D. José de Meneses. Porém, segundo testamento de D. Jorge, só o primeiro foi reconhecido como filho.
Além desta flor o rei habitualmente cultivava outras, das mais variadas espécies: freiras como a Soror Paula Teresa, damas da corte e suas criadas e ciganas como a Margarida do Monte.[8]
Mas D. Luísa sobressaía pela sua rara beleza de pele branca acetinada, cabelos dourados, olhos azuis de brilho intenso e esbelta e altiva figura. A sua presença na corte, como dama da rainha D. Maria Ana de Áustria, era reconhecida como “ a Excelentíssima Flor da Murta.”
Esta dama terá sido retratada por Quillard, numa tela de 62X49, restando porém a dúvida da sua autenticidade, em virtude de constar no reverso da tela, uma legenda que identifica esta senhora com uma dama inglesa da corte de Catarina de Bragança, em Inglaterra.[9]
Dos seus amores com a “Flor da Murta” nasceu, D. Maria Rita de Portugal, bastarda real, criada e educada no Convento de Santos e protegida pelo seu progenitor durante toda a vida.
Ao declínio do amor real, “Flor da Murta” dirige as suas atenções a um membro de sangue real e quinze anos mais novo, o jovem Duque de Lafões, sobrinho do rei. Pelo encanto foi preso, a mando do rei e só não foi supliciado pelos pedidos de clemência que chegaram ao Paço da Ribeira. Deportado para os seus domínios do Norte, Lafões, aí, criou D. Ana de Bragança, filha dos amores proibidos.
Em data incerta, mas antes da morte do Duque de Lafões, em1761, D. Luísa casa com D. Bernardo Francisco de Távora.
- Luísa Clara de Portugal, a “Flor da Murta”, sobreviveu ao marido, ao Rei, mas não ao desprezo dos homens, incluindo os filhos e sem afecto viveu nos palácios do Poço dos Negros e da Qta. de Terrugem até à sua morte.
A família Meneses conservou durante séculos a posse deste domínio onde veraneavam, davam festas de família e conviviam com a realeza e a aristocracia.
Decorridos cerca de quatro séculos e meio a Qta. da Terrugem, que terá sido fundada por António Correia, de apelido Barém, é vendida sucessivamente a:
1900 – Alberto Júlio da Costa Lobo da Bandeira
1920 – Afonso Henriques Botelho de Sá Teixeira
1922 – Artur António da Costa Piano
1930 – Fritz Otto Robert Wirth
1934 – Sara Sofia Abecassis Seruya
1971 – TERIMO Construções
1978 – Câmara Municipal de Oeiras (Palácio)[10]
2000 – Concessão da CMO à empresa SANEST – Saneamento da Costa do Estoril, S.A., por 35 anos, que restaurou o Palácio, as dependências e o jardim envolvente.
Poder-se-á hoje dizer, passados 22 anos, que estão completadas as obras referentes ao projecto de loteamento da Quinta, iniciado em 1978 pela TERIMO Construções, e que após múltiplos desaires e outras dificuldades terminaram em 2000.
Aguarda-se em breve a construção, neste lugar, de uma passagem aérea, pedonal, sobre a linha de caminho de ferro, que irá permitir a ligação entre a Qta. da Terrugem e a Marginal, juntando ao passado aquilo que o presente tem separado.
A QUINTA DA TERRUGEM
A Qta. da Terrugem, com a configuração de um quadrilátero totalmente murado, era composta fundamentalmente pela horta, a Sul, (Terruginha), profusamente irrigada pela ribeira e nascentes, que mais tarde foi vendida a Tomás Bessone para a construção de um palacete e de uma torre com relógio que dá o nome à Quinta do Relógio .
A Norte, ladeando o caminho, sobre a encosta suave, a vinha produziu, ao longo de séculos, colheitas fartas como em toda a região entre o Jamor e Carcavelos. Em finais do Séc. XIX esta área vinícola sofreu os efeitos da filoxera que dizimou esta cultura. Descrições de 1943, referem a nova cultura da uva de mesa, da casta “Rosaki”, com bagos saborosos e dispostos em pérgolas de postes de cimento armado.[11]
O solo muito fértil em espécies vegetais como trigo, cevada, ervilha, feijão, cebolo e árvores de fruto, como atestam documentos de rendeiros e curiosamente alguns topónimos de foros referidos por Rogério Gonçalves, confirmam a riqueza deste domínio.
Além da função agrícola a quinta teve uma vertente de lazer, a caça, a pesca e os passeios no campo, como se observa nas representações dos azulejos do Palácio, até ao Séc. XVIII.
Subindo o pequeno vale, bordejado por árvores de grande porte, oliveiras, castanheiros, pinheiros, vinha e pomar, chegava-se ao Palácio. Daqui avistava-se o Rio Tejo, além a Cova do Vapor e o Bugio e mais ao longe o Cabo Espichel.
Esta situação geográfica privilegiada e a moda de “ir a banhos”, de 1850-1900, reunia a família Real, na Quinta Real de Caxias, mas também, aristocratas e proprietários das quintas e seus convidados. Destacavam-se os Marqueses de Monfalim, da Fronteira, de Ficalho, e de Minas, o Duque da Terceira os Condes da Carreira, da Ponte e de Farrobo, os Viscondes de Coruche, e de Bessone, família Pinto Basto e tantos outros, que periodicamente conviviam por estes locais.
O ponto alto destes encontros era a realização das “Regatas do Tejo”, promovidas pela Real Associação Naval, a partir de 1852, cuja alma era o Conde de Alcáçovas, Paço de Arcos e alguns devotados colaboradores ingleses. As embarcações de vela largavam sempre em frente a Paço de Arcos e consoante os ventos, antes da prova, assim era determinado o percurso triangular a tomar: Cova do Vapor, Belém e regresso a Paço de Arcos, em alternativa Cova do Vapor, Caxias, Paço de Arcos, ou circunscrever-se a três troços entre Paço de Arcos e Caxias.[12]
A presença da aristocracia e alta finança, por estas paragens, leva à inauguração do Casino de Paço de Arcos, pelo Marquês da Fronteira, em 1875.
O PALÁCIO
A habitação nobre dos Séc. XVI a Séc. XVIII é um espaço que representa a Família e obedece a certas regras e pompa. É edificada para revelar o estatuto social e está patente, desde logo, na entrada e nas áreas circundantes, um ambiente paisagístico com lagos, fonte, pérgola, árvores exóticas e jardins de mil flores que emolduram e enobrecem a ilustre casa.
O luxo da família revela-se no espaço do terreiro, fronteiro ao Palácio da “Flor da Murta”, um lago, “rocaille”, de pedra, em forma de concha ondulada, rematada por uma fonte de duas carpas entrelaçadas e contendo no centro uma floreira em forma de cálice. No muro adjacente “conversadeiras” proporcionam o lazer e a visão exterior para o domínio, onde mais tarde os jovens jogavam à bola e onde foram construídos campos de ténis.
Actualmente, o núcleo central é constituído: pelo Palácio e dependências, pintadas de cor ocre-amarelo, típico do Séc. XVII, pátios, lagos e áreas ajardinadas, num total de cerca de meio hectare.
O Palácio assenta as fundações numa casa senhorial do Séc XVI, conforme ainda se pode ler 1549 esculpido no silhar, em pedra, da porta da Capela.
A casa é constituída por dois pisos, com 13 divisões em cada piso, ocupa uma área coberta de cerca de 800 m2 e dispõe de três pátios, um dos quais interior e de uma capela.
A fachada principal, exposta a Sul, é constituída por uma arcada, de inspiração florentina, associada a uma colunata superior. Esta gramática arquitectónica é característica dos séculos XVI e XVII. O primeiro piso dá para uma varanda cujo tecto, actualmente em madeira, é suportado por oito colunas em pedra branca, de mármore, com capitéis esculpidos com motivos vegetalistas e geométricos. Estas colunas suportam seis arcos de volta perfeita e um, no meio, abatido que corresponde à entrada. Este conjunto parece-nos remontar à época primitiva.
Na varanda as paredes são revestidas por azulejos, do início do Séc XVII, de influência hispano-árabe, enxaquetados, com placas brancas separadas por tiras esmaltadas a verde escuro. Como se pode observar, em outros edifícios, este tipo de azulejo era colocado obliquamente (losango), o que leva os estudiosos a supor que tenham vindo de outro local. A sua colocação supõe-se ser da responsabilidade de Fritz Wirth que durante quatro anos foi proprietário do Palácio.
É curioso referir que estes azulejos são os mais antigos de todo o Concelho de Oeiras.
Para a varanda abrem-se seis portas contornadas de cantaria, duas das quais, com silhares tipicamente “maneiristas”. Gravado no silhar da capela estão inscritas as armas de Damião Dias da Ribeira (Ribeiras), escrivão de D. João III, concedidas em 1526. O timbre destas armas é representado, por um leopardo com três estrelas de cinco pontas ladeado por figuras geométricas contendo folhas e outras decorações. No canto superior direito, do silhar, está inscrita a data de 1549, ano de nascimento de D. Maria de Vilhena que casando com um Barém trouxe para a Terrugem as armas dos Ribeiras.
Entrando na capela, simples e de reduzidas dimensões, salienta-se a cobertura em abóbada de berço e decoração “rocaille”, pintada a ouro sob fundo azul. O restauro desta capela está projectado para breve. A capela comunica com o interior da casa, através de uma pequena sala que se supõe ser a sacristia ou local onde a família assistia à missa. As paredes são revestidas por um lambrim, alto, de azulejos azul e branco, do séc XVIII, formando painéis com cenas de anjos, grinaldas, folhagens e medalhões emoldurados.
Azulejos marmoreados a roxo, típicos deste século, contornam o rodapé como aliás em outras salas do palácio.
No primeiro piso destaca-se, voltadas para a varanda, um conjunto de três salas, ligadas entre si, denotando algumas alterações posteriores, quer nos tectos, paredes e lareira, com algumas aplicações em madeira. O corredor, com o chão em laje de pedra antiga e de onde se avista o pátio interior, dá acesso às salas, sala de jantar, cozinha e escada para o piso superior.
Virada a poente e com vista para os lagos situava-se uma ampla sala de jantar com varanda cercada a ferro forjado. Toda a sala é revestida a meia altura com painéis de azulejos, azuis e brancos, representando no centro anjos envolvidos em grinaldas, frutos variados, pássaros e uma tartaruga. Os painéis são extremamente harmoniosos e bem integrados na função da sala. São rematados por moldura exibindo molhos de folhas de acanto apertados por laços cruzados, ao gosto do estilo Luís XVI. Julga-se que se inspiram nos desaparecidos painéis Joaninos que decoravam o Palácio “For da Murta”, no Poço dos Negros, em Lisboa.[13] A encimar os painéis de azulejos, a todo o comprimento da sala, uma prateleira de madeira onde provavelmente seriam expostos pratos de excelente porcelana. O tecto é rodeado por caixotões, em madeira, ligados por traves.
Sobe-se para o segundo piso através de uma escada de corrimão e colunas torneadas em madeira. As paredes revestidas a azulejos de figura avulsa, a azul e branco, representam, ao gosto do Séc. XVIII, flores, animais, barcos, moinhos, entre outros temas.
Já no segundo piso, das três salas voltadas a Sul, salienta-se a de canto, virada a sul e poente, pela excelente vista e pelos decorativos painéis de azulejos que cobrem os lambrins. Destes sobressaem quatro painéis Pombalinos sobre a vida senhorial e quotidiana do Séc. XVIII: nobres observando os “paulitos” e damas trajando a rigor preparando-se para jogar a malha no jogo das “quilhas”.[14] Cena de caça com cão e nobres a cavalo integrados num domínio senhorial, em que se avista um barco com homens a pescar e noutro painel retrata-se a recolha de um braçado de lenha. Os espaços menores desta sala foram revestidos com elementos florais. Os jogos, cenas de caça, passeios nos jardins e junto dos lagos faziam parte da vida aristocrática numa verdadeira encenação barroca.
Neste piso repete-se a varanda, onde foram introduzidas diversas alterações, com tecto em madeira, suportado por seis colunas simples, para onde se abrem cinco portas e janelas com vista deslumbrante para a entrada da Barra do Tejo até 1978, data em que se iniciou a urbanização da Quinta da Terrugem.
Poderemos imaginar o recheio deste palácio, atravessando quatro séculos e meio, constituído por excelentes peças seiscentistas, como porcelanas chinesas, mobiliário de origem indiana, tapetes persas, ou setecentistas como o mobiliário em pau santo e teca e loiças Companhias das Índias, encomendadas pelas famílias nobres. Fruto das influências quer orientais, quer do Brasil, as faianças portuguesas, o mobiliário indo-português, a ourivesaria portuguesa e francesa, os tapetes de Arraiolos e as colchas de Castelo Branco, conferiam aos interiores um ambiente aparatoso.
ASPECTOS FUNCIONAIS DA CASA
O Palácio “Flor da Murta” agregava outras estruturas: a cocheira, a residência do caseiro, o palheiro, a casa com forno de cozer, alpendre para guarda de equipamentos de lavoura, adega e lagar de pedra, galinheiros, coelheiras e pombal, constituindo 11 artigos de matriz urbana, segundo escritura de venda em 1978.
Ainda hoje se podem observar algumas delas adaptadas aos novos tempos. Salienta-se a adega de grande dimensão ocupando todo o topo nascente, com cerca de 35X7 metros, que atesta a grande produção de vinho. O acesso à adega pode ser feito, pelo interior, através do corredor do segundo piso e do lagar ou pelo exterior, através da escadaria entre a capela e a cocheira. A cobertura em abóbada de berço é suportada por seis arcos de volta inteira. O lagar, com acesso ao topo da adega e ao exterior, é amplo e dispõe ainda das antigas estruturas, tanque com 4X4,5 m2 e grandes mós em pedra.
A cozinha, hoje muito alterada, conserva uma grande lareira em pedra dando a dimensão do número de ocupantes desta casa senhorial.
A água, elemento indispensável à casa e à quinta, era proveniente de minas, situadas a Norte, Qta das Minas, que alimentavam permanentemente não só a casa e a cisterna, como os lagos, geminados a poente, o lago do pátio e o tanque de rega. Ainda hoje se sente o murmúrio desta nascente de água pura e lembra-nos o passado, as horas festivas, os risos das crianças, as lágrimas dolorosas dos maus momentos e a lenda.
Ao longo dos cerca de quatrocentos e cinquenta anos a casa foi sucessivamente alterada e restaurada, resultando daí vestígios de várias intervenções como curiosamente se pode observar num manuscrito, pertencente a Rogério Gonçalves, que atesta as obras de conservação e reparação de D. Jorge de Meneses e respeitante ao período de 1783/1791. O valor total da obra orçou 37$774 reis, sendo 20$000 reis para mão de obra e 17$774 para materiais, o que correspondia a uma percentagem de 52.95% e 47.05%, respectivamente.[15]
Entre 1971/1998 o Palácio não mereceu obras de conservação de vulto, reflectindo-se na degradação progressiva das instalações e áreas circundantes. A Câmara Municipal de Oeiras, na sua reunião ordinária de 1990JUN25, deliberou recuperar o edifício para uma unidade hoteleira de quatro estrelas, com 20 quartos, restaurante, bar, galeria de exposições, sala de conferências, ginásio e campos de jogos, capela, entre outros serviços.[16] Este projecto, que correspondia a algumas expectativas dos moradores, não se concretizou, muito provavelmente dados os altos custos de recuperação.
Assim, mais tarde, foi atribuída concessão por 35 anos à empresa SANEST, S.A. ficando esta obrigada à recuperação e manutenção deste património. Em 2000 a habitação e dependências foram amplamente restauradas e remodeladas por esta empresa. Manteve a fisionomia, adaptou a casa aos tempos modernos e à função administrativa, tornando-a confortável e funcional. Contudo há aspectos de pormenor, nas áreas do pavimento e do revestimento, em que poderiam ser tomadas outras opções que a manteriam, tanto quanto possível, na traça antiga.
RELAÇÃO ENTRE O PALÁCIO E AS NOVAS ÁREAS
Cerca dos anos 1970/1975, os interesses imobiliários e a procura de novos espaços residenciais, devido aos movimentos migratórios, internos e externos, aos provocados pela revolução do “25ABRIL74” e a vinda de portugueses de África, levaram à construção, neste Concelho, de novos empreendimentos entre os quais o da Quinta da Terrugem, Alvará de Loteamento nº 12/74, com aprovação em sessão pública da Câmara, em 1977DEZ14.
“O empreendimento compreende a construção de 61 edifícios, cerca de 700 fogos, supermercado, centro comercial, cinema, parques, etc. A área total de construção é de cerca de 70.000 m2, para uma população residente de 3.000 pessoas. A área de arruamentos e estacionamentos e de zonas verdes é, respectivamente, de 42.945 m2 e 35.104 m2, envolvendo um investimento total de cerca de um milhão e meio de contos. Inclui também, no seu espaço geográfico, mais cinco lotes destinados a equipamentos sociais, designadamente: escola, instalações desportivas e recreativas; Palácio com óptimas condições para centro de convívio com restaurantes e piscina ou pequeno hotel de luxo de apoio à Marina de Lisboa, a construir, em frente, entre Caxias e Paço de Arcos e cujas obras deverão arrancar ainda este ano. TERIMO, Janeiro de 1980”.
Devido à época conturbada, vicissitudes e falências diversas os habitantes não vieram a usufruir de nenhum dos equipamentos sociais adicionais, tão amplamente divulgados. Todavia, a urbanização constitui, actualmente, uma zona residencial com interesse e o seu projecto de alguma forma preservou o Palácio, garantindo-lhe uma área envolvente desafogada e com abertura para a entrada da Barra do Rio Tejo.
Da antiga Quinta restam ainda vetustas árvores: pinheiros bravos, castanheiros, oliveiras e outras que merecem ser investigadas. No espaço fronteiro ao palácio identificam-se, magnólias, palmeira centenária, buganvílias e mais recentemente nos canteiros pequenas plantas: murtas, malmequeres e aromáticas.
Na Alameda Calouste Gulbenkian observa-se uma Maclura Pomífera, árvore originária dos EUA, com cerca de 20 metros, que produz uns frutos semelhantes a limões de pele esverdeada e granulosa. Foi cultivada como árvore ornamental e segundo as crónicas há mais plantadas junto da linha de caminho de ferro[17]. Fritz Wirth, de 1930/1934, terá introduzido, nesta quinta, algumas espécies vegetais dos trópicos.
Mais perto da costa, entre a Giribita e a Terruginha, há vários arbustos centenários como o dragoeiro, felizmente preservado durante a construção do empreendimento Casas da Giribita.
Após um longo período de construção a CMO, em meados dos anos noventa, integrou novos espaços verdes em que predominam relvados, arbustos e palmeiras que conferem dignidade aos acessos ao Palácio e ao Museu Automóvel Antigo, instalado em 1990 e hoje a merecer uma benfeitoria exterior.
Outros projectos de construção têm vindo a ser realizados no Concelho, a montante do empreendimento e outros se seguirão, todavia este “desenvolvimento” não tem sido acompanhado por rede viária alternativa, prejudicando o escoamento rodoviário, desta zona, de forma muito significativa.
Mais recentemente as últimas construções, a Sul, na Giribita e Palmeiras, as projectadas a nascente, na Giestas completam o cerco. Mas são sobretudo as cooperativas de habitação, rodeando abusivamente o palácio a Norte, que lhe dão um impróprio pano de fundo.
CONCLUSÃO
A existência do Palácio da Terrugem, “Flor da Murta”, do Séc. XVI ao Séc. XX,
integrado na Quinta da Terrugem, que evoluiu e se adaptou às necessidades da época e dos seus ocupantes, é uma referência histórica e lenda para os paço-arcuenses. É símbolo do seu passado e em particular para alguns dos seus habitantes que, durante cerca de 20 anos, ansiaram pela sua sobrevivência, é a realização de uma aspiração alcançada.
É de salientar o apoio da CMO, na criação e manutenção das zonas verdes da Quinta da Terrugem, dos condóminos, que têm mantido a traça e a habitabilidade do lugar e da SANEST, S.A., que contribuiu para a recuperação do palácio, juntando o passado e o presente, de uma forma harmoniosa, contribuindo para a conclusão de um “projecto com cerca de 450 anos”.
Por outro lado, a alta densidade de construção, em redor do palácio, nos terrenos a Norte e a falta de novas estradas, tem canalizado o tráfego rodoviário para a Al. Calouste Gulbenkian – Salvador Allende, prejudicando o escoamento rodoviário das áreas habitacionais, alterando a paisagem e a paz existente neste lugar. De destacar ainda, as construções projectadas, a nascente, na Qta. das Giestas e a Sul, na Giribita, entre a Marginal e a linha de Caminho de Ferro, irão destruir, em breve, zonas densamente arborizadas e “cimentar” o círculo de visão em redor daquela que é “ uma das jóias de Paço de Arcos “.
Crescimento urbano desmedido e trânsito volumoso são os sinais dos novos tempos em que dificilmente se integra o Palácio, que urge classificar como imóvel de interesse público.
Maria Helena J. R. Miranda de Távora Ornelas Tavares
Novembro 2000
BIBLIOGRAFIA
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– CRISPIM, Mário e Pedro Vasconcelos Lobo, “Retratos de Oeiras “. Oeiras 1994.
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– Guia de Portugal Lisboa e Arredores. Dr. Santana Dionísio, Lisboa 1924.
– Lança Coelho, José “ Memórias da Linha “ nº 66 Revista Oeiras Municipal. Out 2000.
– MECO, José “Azulejaria no Concelho de Oeiras”. Biblioteca XX Oeirense 1982
– Memorial Histórico ou Colecção de Memórias sobre Oeiras.Oeiras 1982.
– ORTIGÃO, Ramalho “As praias de Portugal”, Oeiras Municipal. Revista CMO.
– PARDÉ, L “Les Feuillus”, Paris sd?.
– Plano Director Municipal de Oeiras.
– PIMENTEL, Alberto, “ As Amantes de D. João V ”,Porto 1946.
– Plano de Salvaguarda do Património Construído e Ambiental do Concelho de Oeiras 1999.
– REHER, “Manual of cultivated trees and shrubs”, New York 1947.
– Revista Evasões, Janeiro 2000.
– SARGENT, Charles Sprague “Manual of the trees of North America”, Cambridge 1905.
– TERIMO, Descrição Geral do Empreendimento da Quinta da Terrugem. Janeiro 1980.
– TEROL, Marylene “Azulejos a Lisbonne”. Éditions Hervas, Paris 1995.
– VIDEIRA, MP “Monografia de Paço de Arcos”,1947.
ANEXOS
- Palácio da Terrugem. Fachada Sul. Rés do chão, varanda e capela ao fundo. Antes do restauro 2000. Gonçalves, Rogério Oliveira.
- D. Luísa Clara de Portugal. A flor da murta. Idem
- Palácio da Terrugem. Sala do piso superior. Adega. Antes da restauro 2000. Idem
- Os primeiros titulares do Palácio da Terrugem. Idem
- Custos de conservação e reparação por conta de D. Jorge de Meneses (1783/1791). Idem.
- Alguns topónimos de foros localizados no período de 1715 a 1983. Idem
- Carta Topográfica de Portugal na escala 1/10.000, nº34-C do IGC, 1967. Idem
- Regatas de Paço de Arcos. “ Regata do Tejo. Mapa indicando as carreiras dos barcos”. Videira, Monografia de Paço de Arcos.
[1] GONÇALVES, Rogério d Oliveira -“Terrugem, Terra e Gente de Paço de Arcos” Oeiras 1989
[2] ARCHER, Maria e Branca de Gonta Colaço, “Memórias da Linha”
[3] Idem.
[4] ORTIGÃO, Ramalho – “ Praias de Portugal”
[5]GONÇALVES, Rogério de Oliveira – “ Terrugem, Terra e Gente de Paço d Arcos “ Oeiras 1995
[6] Idem ; e Dicionário de História de Portugal dir. por Joel Serrão.
[7] Idem
[8] PIMENTEL, Alberto – “ As Amantes de D. João V “ Porto 1946
[9] GONÇALVES, Rogério de Oliveira – “ Terrugem, Terra e Gente de Paço de Arcos “ Oeiras 1995
[10] GONÇALVES
[11] ARCHER
[12] Monografia de Paço de Arcos
[13] CRISPIM, Mário e Pedro Vasconcelos Lobo – “Retratos de Oeiras “ Oeiras 1994
[14] MECO, José – “ Azulejaria no Concelho de Oeiras “ Oeiras 1982
[15] GONÇALVES
[16] Idem
[17] SARGENT, Charles Sprague – “ Manual of the trees of North America “ Cambridge 1905