Júlia Seruya

Algumas pequenas recordações da Tia Júlia

1966

Introdução

Meu querido Carlos

Tu sempre me disseste “Faça as suas memórias”. As minhas memórias , não as tenho e se as tivesse não as saberia escrever. Mas achei-te tanta graça que vou tentar escrever para ti umas recordações do passado, já tão longo e já várias vezes contado, como um lampejo de memórias d’uma situação, d’um dito …

Tia Júlia

 

No Carnaval

Passou há pouco tempo o Carnaval que já não existe em Portugal e que era muito divertido quando eu era nova.

S. Carlos, sempre frequentado nessas noites pelos nossos reis e por toda a sociedade de então, tomavam parte na brincadeira geral.

Na terça-feira, última noite, depois do espetáculo sempre organizado especialmente para essa noite, arranjava-se a plateia para dar largas a um baile que durava até de manhã.

Nós tínhamos então um camarote de 2ª ordem que se tornava alegríssimo; levávamos uma ceia para a qual convidávamos alguns amigos e que se realizava numa salinha na mesma ordem que punha à nossa disposição o empresário e nosso amigo José Pacini. 

Comendador José Pacini, empresário do Real Teatro de S. Carlos

Illustração Portugueza (1Abr1907)

Contributor: The Picture Art Collection / Alamy Stock Photo

 

Numa dessas noites quando íamos preparar a mesa tinha desaparecido o cesto. Consternação, quem seria, porquê, o que iríamos fazer, o que diríamos às pessoas que já começavam a chegar?!!

Depois de algum tempo de aflição chega um amigo com o cesto dizendo:” O Senhor D. Carlos queria ver o que traziam para a ceia e manda-lhes dizer que a comam com muito apetite e muita alegria”.

Corremos logo para o camarote para de longe agradecer e convidar o nosso querido Rei.

O Teatro Nacional de S. Carlos (à altura chamado de “Real Theatro de S. Carlos”), em 1893.

 

No Bussaco

Ainda não estava acabado o Palácio Hotel, mas prepararam uns quartos para sua Majestade com a sua comitiva ir passar uns dias para as comemorações do aniversário da batalha do Bussaco com Napoleão.

Minha Mãe, minha Irmã e eu estávamos no Luso aonde tínhamos um grupo muito alegre. Os oficiais que acompanhavam El-Rei depois do jantar fugiam todos para lá todas as noites pois em cima não havia senhoras e achavam maçador.

Uma tarde recebemos o seguinte recado “O Senhor D. Carlos manda pedir às meninas Seruya que deem licença que os seus oficiais passem esta noite no Bussaco e que venham elas para cima e que tragam o seu grupo”.

Está claro que fomos e passamos uma noite divertida dançando, e tocando e cantando à guitarra, o que era muito costume nessas épocas. Lembro-me de ter ouvido dizer ao Rei quando subíamos: “Vamos todos dormir, para que sem o dormir, é tempo perdido”.

 

Outra vez no Bussaco

Passados alguns anos outra vez no Bussaco, aonde nós então passávamos todos os verões algum tempo no Hotel. Tinham preparado o melhor possível dois ou três dos chalés para El-Rei D. Manuel e sua comitiva que ali ia passar umas semanas.

 

Bussaco – Verão de 1909

Fotografia oferecida ao sobrinho Carlos Seruya que, no verso, anotou a data e alguns nomes. Sentado no centro está D. Manuel. A segunda, a contar da esquerda, é Júlia Seruya (autora destas me mórias). A quinta é a sua Mãe, Esther Seruya. Ao lado esquerdo de D. Manuel está a irmã de Júlia, Lice Seruya.

Verso fotografia Bussaco 1909

O Hotel estava completo e o Rei ia para lá muitas tardes e sempre depois do jantar, aonde era mais distraído. Entretinha-se conversando, ouvindo música e algumas vezes jogando écarté com minha Irmã e quando alguém lhe queria chamar a atenção para outra coisa dizia: “Deixem-me, não veem que estou tão distraído com a Sr.ª D. Lice?”

Uma tarde ofereceu um chá às senhoras num dos lindos pontos da mata, que achámos encantador da sua parte. Quisemos agradecer organizando outro noutro ponto. Algumas das senhoras quiseram preparar-lhe uma mesa separada, enfeitando-a com laços e flores. Qual foi, porém, o seu desapontamento quando à sua chegada ele recusou terminantemente sentar-se ali, misturando-se e conversando com todos sem exceção.

Eram assim os nossos Reis.

As intrigas entre Monárquicos e Republicanos

A estas coisas agradáveis havia algumas bem contrárias. Estava hospedada nessa altura um grupo de republicanos que o não escondiam e falava-se por vezes entre todos um pouco desagradavelmente. Um dos chefes, grande amigo do meu Pai apesar das suas divergências políticas, disse um dia a minha Mãe, que era muito querida e popular em todos os meios: “Vá dizer ao seu Rei que forme quanto antes, se quer retardar por algum tempo a implantação da República, um ministério onde admita alguns membros republicanos”. Palavras textuais.

Minha Mãe, muito aflita, foi repetir isto ao General J. que lia o seu jornal muito tranquilamente nas arcadas. Ele levantou os olhos e respondeu: “Não se aflija, Sr.ª D. Esther, nunca haverá República em Portugal”.

Poucos dias depois estava ela implantada……

 

A lealdade monárquica da minha Irmã

Neste convívio entre monárquicos e republicanos notava-se que uns sabiam tudo quanto os outros diziam; isto causava um certo mal-estar e começou a haver desconfiança de qualquer coisa estranha e desconhecida.

Só depois da República implantada se soube qual a pessoa que levava e trazia e que infelizmente fazia parte da comitiva do Rei.

Algum tempo depois a minha Mãe, minha Irmã e eu estávamos num Hotel do Porto quando uma noite vimos aproximar-se de nós muito risonha essa dita pessoa. Minha Irmã, ferrenha monárquica, exclamou: “Não estendo a mão a traidores”.

Minha Mãe quis interferir pedindo desculpa, mas ela insistiu juntando “este senhor sabe muito bem a que eu me quero referir” e realmente tão bem compreendeu que sem uma palavra saiu da sala e nunca mais nos apareceu.

Mais um exemplo da lealdade da minha irmã.

Uma senhora muito amiga da minha Mãe, filha de um muito distinto ministro e diplomata na monarquia, foi passar uma tarde em nossa casa. Tinha-se encantado com um dos nossos primeiros Presidentes, não houve elogio que não lhe dispensasse e, por fim, entusiasmada, exclamou “Sr.ª D. Esther, ele é tão Rei que eu deixei cair um lenço e ele chamou um criado e ordenou-lhe que o apanhasse e mo entregasse”.

Minha Irmã que até ali ouvira tudo sem nada responder, explodiu e disse: “Pois, minha senhora, o Senhor D. Carlos era o Rei e acontecendo o mesmo a minha Mãe, ele próprio apanhou o lenço e entregou-lho. Tenha vergonha, minha senhora, se seu Pai a ouvisse teria um grande desgosto”.

E a Senhora nada mais teve que dizer e a tarde seguiu conversando-se sobre assuntos totalmente diferentes. Continuámos amigas como até ali.

 

Os oitenta anos de minha Mãe

Minha Mãe era uma pessoa duma inteligência, graça e dinamismo fora do vulgar, atração para toda a gente, velhos, novos e de todas as classes e culturas.

No dia em que fez 80 anos fizemos-lhe uma festa em que toda a nossa família e amigos tomaram parte. O nosso querido amigo de sempre Erico Braga mandou uma “orquestrasinha” para dar um pouco mais de animação com dança e ela mesma quis dar uns passos com o neto mais velho para inaugurar o “baile”.

Ao jantar o Christovão Ayres e mulher, nossos bons amigos também, fez-lhe uma linda saúde. Ela, confusa, pediu aos filhos que um deles agradecesse. Resposta “Agradeça a Mãe que tem mais jeito do que nós”. E Ela que tinha realmente o dom da palavra, improvisou um discurso de tal ordem que o Christovão que estava ao pé de mim se pôs de traz, exclamando “deixa-me esconder, estou envergonhado, mas encantado que uma senhora desta idade falesem preparação alguma muito melhor do que eu”.

Ainda felizmente vivem muitas pessoas que a conheceram e guardam d’Ela a maior saudade.

 

Discípula de Rey Colaço

Fui discípula do nosso querido, saudoso e muito grande artista Alaxandre Rey Colaço. Infelizmente não lhe fiz honra…

Uma vez tocava um estudo de Clementi, ele ouviu, chegou ao piano, pegou na música e escreveu “Très mal”. Calculem como fiquei. Fui para casa, chorei, apoquentei-me e estudei. Na seguinte lição muito a medo repeti o estudo e o querido Professor, sorridente e silenciosamente tornou a pegar na música, apagou o mal e substituiu por “Bien”. Chorei, mas então de satisfação.

 

Uma operação em casa

O Sr. Doutor António Craveiro Lopes era um cirurgião muito distinto e um homem muito fino, cheio de jovialidade e espírito e muito amigo de toda a minha família.

Um dia um dos meus irmãos teve de ser operado. Nessa altura não havia ainda estas casas de saúde de hoje e as operações eram feitas nas próprias casas dos doentes.

Os quartos tinham de ser devidamente desinfetados assim como tudo que devia servir. Nós, inquietos, pedimos para sermos avisados logo que terminasse a intervenção e ele para corresponder ao nosso pedido abriu logo a porta e alegre gritou “Um rapaz! Tudo bem!”.

Mais tarde perguntando-lhe nós o que o doente podia comer ele muito sério respondeu “de tudo, mas não lhe deem palha!”.

 

Oferta de uma Televisão

Um assunto muito mais recente passado em 1959.

Um dia apareceram-me uns homens com uma televisão e todo o material para colocarem a antena. Admirada disse que não era para mim; mostraram-me um papel com nome e morada, tudo exato. Insisti que era um engano e de tal forma que os homens se foram embora.

Uma hora depois fala-me um homem ao telefone suplicando-me que consentisse naquela colocação, novas afirmações da minha parte que era engano, até que ele se viu obrigado a dizer-me que era por ordem do meu sobrinho Ruy.

Ante isto consenti mesmo contra vontade na certeza de que seria trabalho perdido até que mais tarde soube que era um lindo presente e surpresa que os meus sobrinhos em conjunto me faziam.

Fiquei comovidíssima e encantada com tão enternecido gesto, como se pode calcular.

E conservo-a sempre; é uma forma muito agradável de passar muitas horas solitárias que tenho à noite.